quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Em tempos idos em que o grande sucesso da internet era o mIRC utilizei o nickname de hannya. Tinha visto um filme onde se mencionava que hannya era um demónio feminino e na altura era como me sentia e, como tal, passei a utilizar esse nickname para várias páginas da net. 
Hoje em dia já não faz grande sentido usar nicknames, com esta proliferação das redes sociais e a partilha dos nossos dados pessoais em troca de um vale de desconto de 10 cêntimos, facilmente se encontra qualquer pessoa e assim deixei de ser a hannya. Contudo tropecei neste blog e voltei a reviver toda aquela revolta e sensação de usar uma máscara como nos demónios hannya.

"Quanto aos ‘demônios’, fala-se que, no budismo japonês, hannyas equivaleriam aos intensos e confusos sentimentos humanos, como o ódio, o ciúme, a tristeza, a paixão e o amor, que, em excesso, poderiam transformar as pessoas nessas criaturas."

Por vezes o nome ainda me serve como uma luva. Como quando me sinto desvalorizada no trabalho e tenho de manter um sorriso, quando a família me ignora ou me irrita eu tenho de ter paciência e engolir mais um sapo, quando me sinto sozinha e tenho de achar que é culpa minha, quando as pessoas à minha volta agem como se fossem o centro do universo e eu tenho de entrar no jogo com uma vénia. 
Raramente posso tirar a máscara, a verdade não interessa a quem me rodeia e é fundamental que pareça estar sempre bem. Tenho medo que os "intensos e confusos sentimentos humanos" que se formam por baixo da máscara um dia ganhem esta luta e substituem aquilo que a máscara tão bem disfarça. Não quero que o ódio se apodere de mim ou que a tristeza me leve a melhor mas tem dias que, infelizmente, isso acontece. Existe muita mas mesmo muita gente que tem tão pouco, que sofre horrores, que vive pesadelos inconcebíveis e até isso me deixa mais angustiada porque não tenho motivos para me sentir assim mas a verdade é que me pergunto o que ando cá a fazer. Tem sido cada vez mais difícil mas todos os dias, ainda entre lençois, tenho de me convencer a existir mais um dia. É só mais um dia até! Até às férias em que consigo dar-me um cheirinho de felicidade, até ao fim de semana em que consigo fugir de parte dos meus problemas, até sábado porque queres estar comigo, até àquela hora e meia em que venço a preguiça, calço as luvas e descarrego as frustações a esmurrar um saco de boxe.
A vida é como atravessar um fosso caminhando por cima de uma frágil corda cujas regras são sómente não olhar para baixo, não olhar para cima do ombro, ignorar o mundo e esperar que este seja capaz de retribuir esse favor. Tudo isto com a máscara posta conforme quem esteja na ponta da corda a espicaçar ou a incentivar.

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